Por que trabalhamos?

Felicidade no trabalho é um luxo recente. Para as gerações anteriores, prazer e labor eram coisas bastante diferentes. Nos tempos dos reinos, feudos e impérios, o trabalho era a condição dos escravos e miseráveis (ou seja, quase todo mundo) ou uma punição para prisioneiros. Nobres não trabalhavam, e ostentar uma pele pálida, livre dos males do sol, era sinal de status.

Com a evolução da liberdade, o trabalho passou a ser qualquer atividade cuja finalidade é a subsistência. Mais recentemente, graças à abundância, o significado do trabalho transcendeu a subsistência e tornou-se um meio de identidade e autorrealização.

Todos trabalhamos para viver. Mas por que vamos além? Por que tantas horas extras? Por que verdadeiramente nos importamos e valorizamos nosso trabalho? Se riquezas são apenas meios, qual seria a finalidade de tanto empenho? É nesse esforço adicional que está uma resposta não tão óbvia para nossa realização pessoal, bem como para uma melhor seleção dos profissionais que nos rodeiam.

O comportamento médio revela alguns padrões. Se estivermos atentos, podemos perceber ao menos 4 objetivos implícitos principais, formando perfis, cada qual com suas qualidades e desafios.

Artistas

Como um artista que lapida sua escultura, compõe um novo riff musical, busca a cor perfeita para sua paleta ou repete uma coreografia à exaustão, os profissionais artistas são aqueles que buscam o estado da arte em seu trabalho. Preocupam-se com a perfeição das suas entregas, sentem-se envergonhados quando não atingem seus próprios padrões e nunca possuem tempo hábil para fazer o trabalho da forma como julgam adequado. Seus altos padrões nunca são atingidos, nem por eles próprios.

São exigentes quanto aos meios e preferem trabalhar sozinhos. Tendem a ser negativos, pois obviamente o mundo está muito aquém dos seus ideais. Geralmente, buscam carreiras mais solitárias, em que podem atuar com pouca interferência e seus talentos podem aflorar e ser reconhecidos. Os profissionais artistas estão em qualquer área: humanas, biológicas e exatas. Se forem programadores, buscarão o código perfeito. Se biólogos, buscarão a classificação exata de cada ser vivo. São do tipo que acordam no meio da noite para anotar um momento de inspiração.

Quando suas necessidades básicas estão satisfeitas, os profissionais artistas trabalham porque desejam deixar sua marca no mundo.

Competidores

Como um atleta que mesmo na liderança ainda esforça-se para quebrar um recorde, o profissional competidor busca a glória por seus feitos inalcançáveis. Para eles, metas não são linhas de chegada, mas o início da próxima empreitada. Os competidores comparam-se o tempo todo e sempre têm alguém para superar. Acham que seu valor pessoal está condicionado ao reconhecimento que conseguem e por isso fazem o mesmo com outras pessoas. Sem perceber, classificam seus relacionamentos numa espécie de hierarquia social.

São exigentes quanto aos fins e resultados. São ousados, corajosos e otimistas. Assumem grandes riscos em sua jornada profissional. Aceitam prontamente qualquer desafio que tenha uma grande recompensa. Da mesma forma, abandonam qualquer situação que não aponte para um futuro grandioso. Geralmente buscam carreiras com bastante interação social, sem rotina e perspectiva de rápida ascensão. Não possuem uma divisão clara entre vida pessoal e profissional, pois seus amigos são na verdade contatos para networking e seu lazer é conquistar e crescer.

Quando suas necessidades básicas estão satisfeitas, os profissionais competidores trabalham porque desejam vencer, sendo publicamente reconhecidos por sua sagacidade e considerados os melhores do jogo.

Paladinos

Como um cavaleiro que luta fervorosamente por uma causa, os profissionais paladinos são aqueles que veem em suas atividades uma missão superior. Possuem valores fortes e entram em organizações por afinidade ideológica. Com uma moral inabalável, geralmente envolvem-se em causas sociais. Possuem fortes convicções políticas e/ou religiosas.

Nas empresas, os profissionais paladinos acreditam que podem fazer a diferença, não apenas nos resultados da empresa, mas também para a sociedade e para os colaboradores. Suas convicções inspiram os demais, o que os coloca em posições de forte influência. Trabalham duro e exigem o mesmo dos demais. Seu ponto fraco está em não perceber e aceitar zonas cinzentas. Para os paladinos, as coisas são pretas ou brancas, oito ou oitenta. O meio termo e a parcimônia são vistas como complicações desnecessárias.

Quando suas necessidades básicas estão satisfeitas, os profissionais paladinos trabalham porque desejam que o mundo seja mais justo.

Preservadores

Como um grande amigo de coração aberto, o profissional preservador é ponderado e prudente, mas também acomodado. Afinal, se tudo está bem como está, para quê mudar? Eles são amigáveis e agradáveis. Costumam amenizar a tensão do ambiente. Recebem muito bem novos colegas.

Os profissionais preservadores não ostentam grandes objetivos, nem patrimônio, mesmo que os tenham. Nas empresas, eles contribuem na preservação dos relacionamentos e protegem o crescimento sustentável. No entanto, podem ser resistentes às mudanças, principalmente se estas ameaçarem suas posições. Se priorizarem suas agendas pessoais, apresentam descomprometimento, comodismo.

Quando suas necessidades básicas estão satisfeitas, os profissionais preservadores trabalham porque desejam manter os relacionamentos, as tradições, a felicidade geral e a harmonia.

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Esses quatro estereótipos formam um mapa. Eles revelam possíveis pontos de sinergia e de tensão em uma equipe. Todos têm forças e fraquezas. Como um bom gestor, sua tarefa é identificar o que motiva cada um dos seus colaboradores.

  • Enquanto competidores podem se sentir estimulados com um bom sistema de metas e bonificações, artistas desempenharão melhor se forem desafiados intelectualmente.
  • Enquanto paladinos podem se sentir cheios de energia na reta final de um projeto importante, preservadores poderão não entender e ou acompanhar essa energia adicional.
  • Enquanto preservadores geram um ambiente colaborativo e desempenham muito bem neles, os artistas podem preferir o isolamento e podem concentrar informações.
  • Paladinos podem se sentir altamente motivados por uma causa coletiva, mas podem ficar frustrados com metas e comportamentos individualistas dos competidores.

Finalmente, a busca por um trabalho que traga autorrealização só faz algum sentido se soubermos claramente o que autorrealização significa para cada um de nós. Qual perfil tem mais a ver com você? Por que você vai além?

Daniel Bastreghi

Daniel Bastreghi

Daniel Bastreghi é sócio e consultor em marketing e tecnologia na DRB.MKT. É criador da ferramenta de planejamento Marketing Strategy Canvas, autor do livro “Os 5 fatores de sucesso na Internet”. Iniciou sua carreira como desenvolvedor de sistemas. Foi programador e coordenador de projetos. Participou do desenvolvimento de websites institucionais, portais, hotsites, comércios eletrônicos, CRMs, softwares de gerenciamento de e-mail marketing, games, entre outros, para empresas como Electrolux, Hipermarcas, Bayer Schering, etc.

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